14 novembro 2013

De crianças, navegantes e mar

"Bom dia, venci!" Esse é o brado que sinto vontade de dar nesse momento, mas o que é vitória e o que é derrota no campo do tempo e da vida, se nascemos tendo no corpo escrito um endereço certo, chão?

No que diz respeito a vida em si, quando é ela que está em jogo, o "máximo" que temos são vitórias em batalhas temporárias nas quais recuperamos um período ou prorrogamos o tempo que nos seria arrebatado. Parece pouco, mas não é; indague ao moribundo ou ao sentenciado a morte.

O que tento dizer Dostoiévski deixou muito claro em sua obra "Recordação da Casa dos Mortos", quando relata sua condenação a morte por divulgar idéias revolucionárias em seus debates e o exato momento da execução da sentença, com o pelotão de fuzilamento em forma, no instante em que o comandante lhe dá os cinco minutos que pedira para refletir. Logo depois a sentença seria comutada, era uma farsa que ele desconhecia, e seria enviado para a Sibéria.

Naquela hora em que soube que não seria fuzilado, de que não morreria - pelo menos não naquele momento - se sentiu inebriado, já que, minutos antes, odiara ter perdido tanto tempo tentando modificar as coisas ao invés de viver; também se sentiu inebriado, provavelmente, por não imaginar o inferno que viveria na prisão siberiana onde passaria seus próximos quatro anos.

No entanto, Dostoiévski tinha razão por se sentir inebriado. Ninguém vence o tempo e a morte e o máximo que conseguimos entre um momento e outro do embarcar e desembarcar na estação da Vida, são as vitórias em pequenas ou grandes batalhas, os tempos de felicidade, os amores e esperanças vividas, as chegadas e despedidas, a alegria e a coragem com que nos lançamos ao mar, e o que aprendemos e vamos transmitindo ao longo dessa viagem.

Alguns preferem encontrar um porto nesse mar, outros preferem ter às mãos sua própria âncora para não dependerem do cais. Não há erro na escolha, apenas opção. Mas tanto uns quanto outros conhecem a máxima do poeta: -"Navegar é preciso!"

Para navegar, não se pode temer as tempestades nem os monstros marinhos e o velho navegante sabia disso. Mas se o terror do navegante são as tempestades, sua maior alegria é sentir os raios do sol no corpo após cada uma delas.

É assim, sempre foi assim e continuará sendo assim na vida de cada um de nós. Afinal, o que é que nós faz chorar hoje senão aquilo que nos fazia sorrir ontem, e o que nós faz sorrir hoje senão aquilo que nos tornará tristes amanhã? O nascimento e a morte, o casamento e a separação, provam isso. Mas não é nem em um nem em outro momento que podemos viver nossas maiores alegrias nem nossas tristezas mais profundas. Só existe um tempo possível, que é o agora, o hoje, o já. Daí a importância de vivermos bem cada instante presente.

Muita gente, eu mesmo muitas vezes, esquece de dizer "te amo" para as pessoas amadas, deixando isso "para depois"; é curioso, pois não temos qualquer certeza quanto a esse "depois"... É sempre melhor dizer logo, na hora, e de preferência sempre; até porque o sempre é tão incerto e volátil quanto o nunca.

Como navegante me sinto um velho marujo que o sal e o sol desenharam a face e a alma. O navegante sente medo, não é um intimorato como pensam alguns: apenas tem a coragem um pouquinho maior que o medo.

Mas esse velho marujo tem a alma canina, tem alma criança, que esquece fácil as coisas ruins vividas e se surpreende sempre com cada amanhecer.

Hoje é uma nova manhã em minha vida. Acabo de vencer mais uma batalha.

Nunca vencerei a guerra. Mas lutarei todas as batalhas e viverei todos os momentos da Vida.

Bom dia a todos!

Rio de Janeiro, 14 de novembro de 2013.

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