27 janeiro 2007

Impossibilidades



Impossibilidades


por Paulo da Vida Athos*




Impossível descrever o amor.
Mas se eu tentasse,
diria que nele há um pouco de ti
em tudo.


De tuas digas,
de teus carinhos,
do cheiro de tua pele,
do perfume te teus ais,
desses encantamentos todos
que com graça e liberdade,
pude até agora viver.

Porque o amor é como a liberdade:
impossível de se ver,
intocável em sua essência,
perceptível apenas nos sentidos.

Não tenho como descrever
o amor ou a liberdade.

Posso vivê-los, no nós.
Mas não sei como vivê-los, sem nós.


*Paulo R. de A. David
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21 janeiro 2007

Rito de Amor



 









Rito de Amor









Minhas palavras possuem
um conteúdo quente de saudade.
E a melodia desmaia no escondimento,
nesse recôndito de minhas fábulas poéticas,
nesse silêncio de deus,
onde te encontro cálida à minha espera.

E, te recebo emocionado,
revivendo as emoções de estar em ti mil vezes
por segundo,
e te aproximo de minhas folhas amareladas
em busca de inspiração para sobreviver
ao colóquio inerente da alma.

Fico contigo, me perdendo dentro delas,
sentindo seus braços numa pressão carinhosa,
chegando ao coração num rito estranho de amor...

Minha vida é uma saudade diária,
surdinando no tempo os passos que nunca demos juntos,
na realidade que assiste nosso amor ser propagado ao infinito,
no entendimento com Deus.

Fico contentando-me com o limitado,
quando minhas mãos parecem ser conduzidas por ti,
marulhando dentro do peito, que bate convulsivamente
nas paredes apertadas em nosso mundo
e, na minha espera.

E, fantasio tudo muito depressa!

Farto-me da alegria e te espero,
mesmo que jamais testemunhe teu chegar...

E quando digo que te amo, é com o apetite infinito
de mensagens revelando e levantando do chão,
uma esperança que não acaba nem sacia...

A tua sombra consegue atar meus pensamentos
numa felicidade perambulante, benevolando
a febre de um beijo que jamais trocamos,
dos hábitos que fariam de nós
amantes felizes perante o amor...

Meus lábios querem abandonar-se num sorriso,
mas os olhos se perdem na saudade simultânea
dos segundos.

Fica comigo uma vontade enorme
de medir teu coração,
nas circunstâncias da vida
e nas razões dos sonhos.

E limitando tudo,
a impossibilidade.

Fica comigo o silêncio obscuro.

Piedoso de minha loucura,
tentando discutir a minha angústia,
o meio-nada, o meu telhado de vida
que ameaça desabar em tua ausência eterna.

E meu cabelo revolto ao vento
que canta alto este amor ardente e,
sonhado.

E fico seguindo caótico as horas de tua chegança.

Cego.
Coração exausto da espera
de toda uma vida.

E quando chegas,
novamente vejo auroras e crepúsculos,
quando sinto teus olhos me limitando a ser
mais uma vez, extasiado.

Quero derramar lamentos culpando-te
pela ânsia...

Louco, afoito, venerar teu rosto
acreditando que vieste dos céus
e que tens nas mãos a chave de todos os meus anseios,
capaz de diminuir distâncias
e transpor galáxias...

E quando me abraças...
mergulho em ti, para a loucura.

E se te coloco inteira,
em minha vida.

Me coloco inteiro,
em tuas mãos...


(Paulo  Athos)

19 janeiro 2007

Noturno








Noturno


por Paulo da Vida Athos


Gosto da noite que se aproxima,
de seu silêncio adivinhado,
de seus mistérios e fantasias
e do perfume suave que a brisa
forasteira e fugidia,
rouba da flor ou da mulher que passa.

Gosto do que na noite existe.
Das estrelas,
das luzes das favelas,
dos casais ocultos nas sombras mais pesadas,
dos murmúrios ininteligíveis
e até do bêbedo mal educado,
desbocado,
que as vezes vejo passar.

Gosto de nuvens esbranquiçadas de luar,
de mar anoitecido marulhando nas pedras,
dos ruídos indecifráveis das folhas secas,
soltas ao vento,
empurradas pelas calçadas, pelas ruas,
cancionando solidão sem só
e sem tristeza.

Gosto da noite envolvida em lua,
quando acendo um cigarro,
trago
e expulso a fumaça que se tinge em névoa branca,
antes de se volatizar no espaço.

Gosto das noites calmas,
tinturadas de estrelas,
perfumadas,
sensitivas,
transmissivas,
transitivas...
com o amor transitando em nós!


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Oração de um pescador


Oração de um pescador...






por Paulo da Vida Athos



Que não se desliguem de mim, os sonhos.
Nem a liberdade.
Que não se desfaça em mim a vontade,
De seguir em frente, de findar viagem,
Que mais que finda é início,
De novo sonho,
De infindas vias, de estradas mil.
Onde a realidade se mistura com a miragem...


Que não me deixem órfãos, os ideais.
De liberdade.
Que não se esmaeça em mim a saudade,
De abraçar o ontem, de me fazer aragem,
Que mais que brisa é vento,
De novo barco,
De novas velas, de mares meus
De mergulhos mil, de descobertas infindas,
Onde as águas se misturem com a viagem.


Que não se despeça de mim, o mar.
Nem o amar.
Nem o amor à liberdade.


Pois se isso acontecer,
Não mais serei o mar,
A brisa.,
O sonho,

Ou a Liberdade...

Serei espuma do nada.
E em nada me tornarei...


*Oração feita em homenagem e para proteção de um pescador, navegante, guerreiro, sobrevivente, desses que navegam em qualquer mar, e meu grande amigo P.P.V.

17 janeiro 2007

Cartas do |Inferno (I)





Cartas do inferno I




Mamãe Alba.



Quando a noite chegou trazia um vento frio e cortante. Por volta das dezenove horas já a noite se fechava, apresentando um céu despido de estrelas. No ar, uma umidade sentida em cada plano tocável embalsamava o material e imaterial de cada homem e de cada sentimento.

Noite enunciável...

Existem sensações premonitórias e inexplicáveis, que têm a qualidade de preparar o ser humano para fatos e circunstâncias inesperados e, normalmente, insuportáveis.

Houve premonição coletiva, que outra forma definirei?, a partir das dezenove horas até às vinte e uma horas, quando a tensão chegou ao auge e se corporificou, bizarra e inumanamente, numa explosão de ódios, medos e fúria, numa canção de sangue.

Agora os ponteiros do relógio que carrego acusam que quarenta e oito minutos se escoaram, desde as vinte e uma horas, e, no silêncio anormal que envolve o prédio (um mundo à parte do mundo), procuro pensar que o amor existe, e existe a paz, a felicidade, a ternura e a compreensão.

(Seria tão fácil para o homem viver em um mundo de amor. As horas registrariam na mente momentos de felicidade, a felicidade geraria sorrisos, os sorrisos constituiriam a compreensão que engrandeceria o diálogo da Vida que existe em nós).

Estou um pouco cinzento devido a certos acontecimentos que se desenvolveram, envolvendo homens que aqui se encontram. Por mais que o tempo tenha passado, por mais que meus olhos tenham testemunhado fatos semelhantes, para mim será sempre uma novidade que encerrará uma dor e uma decepção.

Meu conforto é saber que existem pessoas assim como a senhora e outros que sei existirem, de alma assim, igual.

Amanhã espero que o céu amanheça muito azul; que meus pombos não deixem de revoar em bando; que as flores floresçam com maior intensidade de cor e perfume; que os acordos de paz superem as guerras; que o sol elimine as sombras; que a criança abandonada encontre um novo lar; que os hospitais fiquem mais vazios; que a delinqüência feneça; que o amor entre os homens se propague sem distinção de raça, credo ou partido... e que, sobretudo, a existência dos C.... F... não seja apenas um sonho meu.

Mamãe, aproveito e envio esta poesia de Giuseppe Ghiaroni, “
Dia das Mães”, que ofereço à senhora, com meu muito, mas muito carinho mesmo.

Beijos para todos.

Para a senhora, um beijo especial, com meu carinho e minha saudade.

Do seu filho,

Eu.


Rio de Janeiro, 8 de novembro de 1977.



Foto: Almada Negreiros, maternidade, 1935


12 janeiro 2007

Ouça-me...



Ouça-me...








por Paulo da Vida Aths


Tem gente que vive saindo na porrada com o presente, com a alma prenha de insatisfação e uma esperança cabeçuda de ser feliz no ontem.

Coisa de bicho homem que prefere dar uma de cachorro abandonado, olhar perdido no passado, enquanto o tempo sacana como ele só vai desfilando na Sapucaí.

“- Foi um rio que passou e minha vida...”

Aí, mané, não tem jeito mesmo. O rio passa e sua alma canina tem mais é que ficar uivando, na bronca, pelo tempo que você deixou passar, babacamente, numa esquina qualquer da vida, pensando em mil coisas que deixou de fazer, em mil digas que deixou de dizer, em algumas bocas que deixou de beijar, só por que a porra do amor que vive em você é tão besta quanto quem o abriga e te sacaneou legal, te deixando plantado, sedado, enquanto o tempo passava sem parar sua evolução como minha Portela querida.

Tem mais que cair no samba, tem mais que cair na vida! 

Ou está pensando que regando lembranças com lágrimas colherá realidade? Tá. Me engana que eu gosto.

Vai ser feliz no ontem? Vai nada! 

Muito menos no amanhã poderá viver felicidade alguma.

O ontem passou, é sonho ou pesadelo, o amanhã é visão e talvez você nem chegue lá. 

Se tem um momento em que poderá viver qualquer coisa que não seja essa lamentação idiota, é o presente, o hoje, o agora, o já!

E, já!

Não tem essa de amanhã. Isso é papo cigana ou de pai-de-santo.

A mim não engana. Não vou na onda.

Mas se não consegue cair no samba, aproveita a solidão, faça uma poesia ou procure uma pessoa cheirosa, afinal você está sozinho e tem mais que preencher vazios.

Mas não o faça com lembranças, qualquer que seja, muito menos com dor.

Nunca escreva poemas de dor!

Pratique o amor, ame. Se entregue sem medo. 

Afinal, você não é eterno e não tem nada a perder.

Curta cada minuto como se fosse o último. Beije. Beije muito, beijar faz bem à saúde.

Curta manhãs de sol, areia no corpo, mergulhe e ouça o murmúrio do mar.

Não durma nas noites de lua cheia e não perca o perfume que o jasmim esparrama nas madrugadas.

Ame as tardes, mesmo aquelas que não são brilhantes como as tardes de abril. 

Tente ouvir o canto de um rouxinol, deixe seu olhar bailar com o vôo imprevisível de um beija-flor.

Olhe crianças brincando, você não sabe o quanto isso me deixa feliz! 

Fique em uma tarde de outono próximo a uma escola, na hora do recreio, e ouça a canção da vida tomar o céu de sua tarde. A vida é sempre juvenil...

Faça isso, quando nada, por mim.

Você pode até dispensar. Mas eu não abro mão de ser feliz.

Com carinho,

Seu coração...


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01 janeiro 2007

Menos razão em 2007

Menos razão em 2007...


por Paulo da Vida Athos.

Deixo 2006 sem saudade, sem olhar para traz. Tendo diante de mim e meus sonhos o ano chegante e o futuro, lanço a ambos um olhar de esperança e de súplica.

Claro que o número de nascimentos superou o número de óbitos não só no Brasil. No mundo inteiro o mesmo aconteceu, a despeito da violência e das guerras. É a natureza em autopreservação, é a raça humana no colo da Vida.

Curioso imaginar que a única forma de vida capaz de aplicar a razão seja justamente aquela que desestabiliza a Terra colocando em risco sua existência, a do planeta e da vida nele agregada.

É realmente estranho constatar que o homem é a única forma de vida animal capaz de matar sem ser por fome ou para se defender. Mata por ambição, por ódio, por amor, por indiferença. Mata até por matar. É intrigante essa capacidade mórbida de desamor pela vida, seja a sua ou a do outro. É frustrante buscar resposta para o porquê de o homem ter tamanho desdém pela humanidade e pelo planeta se sem ambos a ópera da vida não pode ser montada.

A grande política do homem parece ser a da destruição.

Usa mal sua razão e não usa sua humanidade.

Nesse exato momento mais de seiscentas guerras estão instaladas no mundo. Mas a inconsciência coletiva está tão doentia que talvez esse número surpreenda muitos. E é justamente nesse terreno em que se dissemina a mais intolerável das condutas humana: a indiferença.

Nada aprendemos com o genocídio de Ruanda, em 1994, dos massacres da cidade Bósnia e de Srebrenica em 1995, e do uso de civis como alvos no Sudão. Nada nos ensinaram os genocídios ao longo da história humana. Até aqui, desde a Segunda Guerra Mundial, genocídios acorreram no Afeganistão, El Salvador, Uganda, Irã, Iraque (aqui também incluídos os curdos) Palestina, e mundo à fora, diante de uma humanidade anestesiada moralmente. Nesse momento a Somália está sob fogo.

No lodaçal de sangue no oriente médio o sonho americano mostra a face mais cruel dessa insensatez, com seus títeres assombrando as crianças que correm sobre os escombros e cadáveres de suas casas e de seus amigos e familiares. Mesmo palco onde em 2006 o Líbano teve suas ruas e calçadas lavadas pelo sangue de seus inocentes, crianças e velhos, homens e mulheres, já que bombas e balas não têm preferência pela presa que abate. 

Na chamada terra prometida reside o espanto de Deus: é muito pouca terra para tanto ódio e sangue.

No Brasil a criminalidade violenta e desorganizada semeia a morte e o pânico na população diante de uma polícia também desorganizada por falta de políticas públicas de segurança, graças a nossa incapacidade crônica de cobrar dos governantes políticas sociais.  

Somos um povo que não cobra. Poucos foram às ruas em 64 e nas duas décadas que se seguiram.  

Não mudamos. Poucos vão ás ruas, hoje, para cobrar um pouco de vergonha na cara de nossos representantes e governantes, seja por suas omissões, seja por suas ações inescrupulosas. Não mudamos.  

Nunca tivemos nossa “Primavera de Praga”, e já passou da hora faz tempo...  

Torço para que nossa indiferença moral e crônica seja sacudida em 2007.

Todas essas coisas me marcaram em 2006. Essas e muitas outras.

Mas o mais marcante para mim aconteceu em 30 de dezembro. A execução-assassinato de Saddam Hussein, o ditador genocida do Iraque. Não sou a favor dele nem gosto de ditadores, muito menos genocida como ele.

No entanto minha alma inaceita a morte anunciada, principalmente se pode ser evitada, de qualquer ser humano, de qualquer vida animal, por mais animal que tenha sido o ser humano ou por mais humano que tenha sido o animal. Não comungo com ditadores por serem assassinos vez que não comungo com assassinatos.

Concebo até que a vingança pessoal possa levar o homem a matar. Conheço a força das emoções humanas não as desprezo. Mas matar por hora certa? Matar quando se pode manter preso por todo o resto da vida, o que já é uma morte, mas não faz do julgador um homicida nem do carcereiro um carrasco, é apenas mais um assassinato.

Para mim 206 teve nesse ato seu ato mais grave e final. Um homem de mãos atadas, que dispensou o capuz dos condenados, que, encarando a morte de frente e amaldiçoando seus assassinos, foi enforcado quase que ao vivo em razão da força na internete.

Isso não é racional, embora humano. Faz parte do eu-humano sem caridade.

Esse é desejo em 2007?  

Menos razão e mais humanidade.

Fonte

Meu filho

Tenho em minha vida o homem mais doce que existe, meu filho. Quem tem a felicidade de conhecê-lo, sabe disso. Um cara amigo, leal, com ...