29 outubro 2006


DEMOCRACIA DE CADÁVERES

Por Paulo da Vida Athos

Quando uma criança de dez anos e um policial são assassinados em plena tarde de um sábado no Rio de Janeiro, como acaba de ocorrer, a cidade e a vida deixam de ser maravilhosas e minha vida morre um pouco também. Morre dessa tristeza danada que me sacode a alma ao pensar que ainda hoje pela manhã ambos acordaram e depararam com um céu muito azul, desses que convidam a tudo e a todos ao grande concerto que é a vida.

As mortes prematuras do menino Loran Santos e do policial militar Ferreira, durante o tiroteio entre traficantes e policiais militares do 6.º BPM, no bairro da Tijuca, zona norte da cidade, são inaceitáveis e minha indignação não me deixa calar.

É vital para a democracia o controle da violência, parta ela de onde for, e enfrentá-la é obrigação quando se vive o Estado do Direito. Mas enfrentá-la não é fazer uma política de guerra, de enfrentamento, sem o uso da polícia científica, da tecnologia e de inteligência, onde não mais se selecione as classes mais pobres (e nela incluo a maior parte do contingente de nossa polícia militar em razão do soldo e origem), para boi-de-piranha.

O número de mortes está na razão inversa da consolidação do Estado de Direito. Embora alguns preguem o contrário, não é aumentando o número de cadáveres que estamos combatendo a violência: nem sua causa, nem sua conseqüência.

É muito grave constatar que as práticas adotadas por governos ditatoriais estão sendo acolhidas por governos que se afirmam democráticos, na guerra contra os atuais terroristas e subversivos (na ótica insanidade total) e que está sendo legitimada pelas elites e pelos omissos.

Os terroristas de hoje: são os pobres. Aqueles que vivem nos guetos das periferias e favelas.

Elegê-los como terroristas, já foi feito. Inclusive pelo próprio poder judiciário, atropelando o ordenamento jurídico em vigor e direitos (não garantidos) fundamentais previstos em cláusula pétrea constitucional, através do escatológico "mandato de busca genérico", instrumento pelo qual um juiz autoriza a polícia a entrar na casa de qualquer pessoa de uma comunidade inteira. Ou seja, todos os moradores de uma determinada favela são suspeitos. Fosse no Leblom ou no Pacaembu, certamente tal hipótese não seria cogitada. Independente disso, quando o judiciário abriga a ilegalidade do executivo, senhores e senhoras: é que a coisa vai muito mal.

Para um Estado de Direito essas mortes tão estúpidas quanto inúteis de policiais e inocentes, são inadmissíveis. Loran e Ferreira foram mortos, assassinados. Independente do cano de onde tenham saído as balas; o culpado é o governo do Estado do Rio de Janeiro.

Desde que assumiu seu primeiro anos de mandato, a segurança pública fluminense praticou uma única política: a do extermínio de inocentes civis e policiais.

Ora. Não se faz de uma favela um campo de batalha. Existem outras formas de se combater a criminalidade em nossos guetos sem a morte de inocentes. Para reforçar o que escrevo, tenham em vista que todos os grandes traficantes cariocas já foram presos. Alguns até mais que uma vez, já que afirmam que foram “mineirados” (termo usado para o roubo praticado contra os mesmos por policiais que não honram sua missão), soltos, para depois serem presos e levados para a “dura” por outros policiais que não nos permitem perder a esperança em nossa polícia.

Logo, o combate ao crime não exige que se faça uma praça de guerra nem pelas favelas nem pelas ruas do Rio de Janeiro ou qualquer outro lugar onde transitem inocentes. Muito ao contrário. O saldo de cadáveres na ultima década, deixa visceralmente exposto o equívoco dessa política de enfrentamento que governantes boçais adoram às escancaras de chamar de “guerra contra o crime”. Não quero essa guerra no quintal de minha casa, nem nas ruas de meu bairro, muito menos em nossos guetos e favelas. Para mim, crianças e inocentes são iguais.

Amanhã as mães e famílias de Ferreira e Loran estarão enterrando um ser amado. Será domingo. Não creio que o céu ficará azul, mas, se ficar, será encoberto por minha nuvem interior, por minha tristeza cinzenta.

Peço à Deus que dê conforto aos pais e aos familiares de ambos.

E aos governantes: vergonha na cara!



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